Fui uma criança muito criativa e com imaginação pra lá de fértil. Confesso que não mudei muito ao longo dos anos, mas isso é uma outra história.
Um dos filmes que marcou minha infância foi sem dúvida A Fantástica Fábrica de Chocolates, e por mais que não pareça, sou do tempo em que Willy Wonka era Gene Wilder, o mesmo que anos mais tarde se seduziu pela Dama de Vermelho.
Eu era fascinada por esse filme. Vi e revi várias vezes pela televisão. Sim, por que naquela época não existiam video cassetes, e as reprises eram feitas exaustivamente pela Sessão da Tarde na Rede Globo de TV. E eu, logicamente vi todas.
Duvido que alguém da minha geração nunca tenha desejado comer um chocolate Wonka e encontrar nele um bilhete dourado, tão pouco acredito numa só criança que não sonhou com aquela fábrica de sonhos adocicados.
Eu por exemplo, sonhei várias que estava nadando na piscina de chocolate.
Os anos passam, os sonhos mudam, as memórias afetivas vão para o fichário da vida e um belo dia, quando menos esperamos, elas reaparecem num passe de mágica diante dos olhos e com a emoção e expectativa redobradas pelo reencontro.
Foi o que senti neste fim de semana numa loja cheia de coisinhas legais que fui num bairro vizinho ao meu.
Eu não tinha visto, pois estava num frenesi danado com tantas coisas fowfas piscando pra mim quando o lado zen, sempre atento e conhecedor de meus gostos mais secretos, me chama para mostrar uma caixinha de papelão com algumas barras do maravilhoso e eternamente desejado chocolate Wonka.
Meus olhos brilhavam como os de uma criança diante seu brinquedo favorito, tive um pire-paque e sem perceber sacudia as mãos e falava sem parar
" Wonka!!! Eu quero! Eu quero! Deixa! Posso! Por Favor! "
como se tivesse 7 anos de idade e falasse com meu pai para me dar algo que naquele momento, era objeto de primeira necessidade para mim.
Óbvio que fui motivo de risada da family ( meus filhos até já acostumaram com a mãe que tem e disseram: "Papai, compra senão a mamãe vai ter um ataque..." Juro, fingi que não era comigo...)
Mas pensa bem, quantos da minha geração não queriam estar lá no meu lugar realizando esse sonho?
Isso foi no domingo, e apesar dos pedidos insistentes das crianças, ainda não tive coragem de abrir e não sei bem o por quê; pois mesmo sabendo aonde tem e que não é o único, fico com medo de perder meu sonho e não encontrá-lo mais.
Sei que é meio louco isso e que sou uma idiota ao revelar, mas é verdade, fazer o quê.
Mas já sei que o bilhete premiado não está dentro dele, pois na frente da embalagem tem um círculo dourado falando da promoção para ganhar o bilhete.
É fato que muitas pessoas estabelecem uma relação afetiva com um determinado produto, como aconteceu comigo e meu chocolate, mas isso não justifica minha neura em não consumi-lo.
Prometi à eles que abriria depois de tirar uma foto e depois de 4 dias enrolando, não tenho mais como fugir desses predadores infantis que não entendem meu drama e não se compadecem de meu sofrimento.
Acho que de hoje não passa.
O que me conforta é saber que tem mais e que posso adquiri-las.
E mesmo sabendo que o bilhete dourado não estará lá, a expectativa ao abrir uma barra, a sensação gostosa causada pela ansiedade carregada de lembranças infantis sempre estarão presentes, pelo menos enquanto o chocolate derreter em minha boca.
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12/11/2009
17/10/2008
A Mesopotâmia é Aqui
Em épocas de crise, a solução para pequenos problemas domésticos vêm principalmente da criatividade gerada pela necessidade.
Hoje de manhã, fiz um intercâmbio mesopotâmico com uma amiga que mora duas quadras antes de mim.
No melhor estilo necessidades básicas femininas, cambiamos uma torta de chocolate por uma manicure.
Assim, ela necessitava fazer as unhas que estavam mei baquiadinhas e eu necessitava de um bolo de chocolate para matar a minha vontade, digo das crianças, de comer doce.
Resolvidos nossos problemas de primeira necessidade, ficamos assim; ela bem feliz com as unha nova dela e eu bem feliz com minhas banha nova, digo bolo novo, fofo e cheiroso.
Voltei pra casa e fui fazer uma calda de chocolate pro meu pagamento, só pra consciência ficar tranquis e enfiar os dois pés na jaca de vez.
O resultado é esse, não ficou lindyo?
E pra semana que vem, ficou prometido uma torta salgada na permuta. É minha gente, dona de casa é melhor que presidente de banco central em época de aimeudeus...
18/09/2008
Chocolate Cor de Rosa
Essa semana fiquei comovida com o lado zen. Na verdade mais passada do que comovida.
Estávamos conversando sobre transgressões de adolescência, e eu lembrava com orgulho da minha fase dark-punk-roupa-preta-cabelo-azul-roxo-e-cor-de-rosa (verdade, tive cabelo de todas essas cores) até que resolvi perguntar ao lado zen qual a maior transgressão que ele tinha feito na juventude.
Ele pensou, pensou... titubeou (talvez por vergonha, talvez por receio da minha arriação) mas resolveu me contar como foi a sua fase "rebelde sem causa".
Eu (cheia de orgulho depois de relembrar meu currículo rebelde):
- E tu, qual foi a cousa mais rebelde que tu fez pra provocar tua mãe?
Ele (cheio de pontos de reticências na expressão):
- Ham... Que eu lembre... a coisa que mais deixou minha mãe enlouquecida foi quando... cof cof... comprei uma camiseta...rosa choque...
Eu (não acreditando e horrorizada com o que acabava de ouvir):
- o que???????? como assim uma camiseta rosa???? tem certeza????? só 'isso'??? quaquaquaquaquaquaquaqua!
Ele (com cara de pastel e já arrependido da confissão feita e do mico pago):
- Ué, tu esqueceu que minha mãe é japa?
...
É mesmo... só quem vive dentro do mundo japa sabe o quão nonsense eles são para algumas (a maioria) das coisas. Quem tá de fora não imagina como é a relação familiar entre mãe-filho japonês da gema.
Eles cultuam e não deixam morrer sua cultura em qualquer lugar do mundo, mas também têm arraigado alguns costumes herdados dos pais ou lembrados de suas infâncias no Japão (na década de 50 e pontinhos).
Até hoje aqui no Japão, a relação entre pais e filhos é um ponto delicado. Quase não se conversa, as crianças aprendem a se virar e ser independentes muito cedo e na adolescência, é raro ver pais e filhos passearem juntos.
Tá certo que hoje em dia, um homem usando camiseta rosa choque no Nihon é mais que natural (perto das bizarrices que se vê na rua é até básico). Mas na década de 80, no Brasil, com uma mãe japa legítima criada no Japão até os 15 anos, e que na cabeça dela, tatuagem ainda é coisa de yakuza e camisa rosa coisa de mulherzinha, realmente foi uma baita transgressão. Será que é por isso que ele abomina camisetas cor de rosa?
O fato é que fiquei compadecida e de certa forma, até emocionada, pelo conceito lírico e simplista de transgressão para o lado zen.
Sério mesmo. Não tô fazendo piada (...)
E pra provar isso, esse mês vou deixar ele de boa na minha fase TPMonstrícia. Não aproveitarei meu lado Dr Jackyll para me vingar sem remorsos das irritações que ele me faz passar ao longo do mês. (Pelo menos nesse mês...he he he)
Me contentarei com kilos de barras de chocolate. Que é gostoso, alimenta e dá espinhas.
ps: Casualmente hoje, ele trouxe 2 barras grandes pra mim... será uma premunição?
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