Mostrando postagens com marcador amor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador amor. Mostrar todas as postagens

15/07/2009

Orelhinha e Cotonete

Orelhinha está deitada, largada de tudo e acompanha tudo o que acontece em sua volta só mexendo as grandes bolinhas de gude pretas que tem no lugar dos olhos.
Orelhinha é calma, paciente, robusta, amável e zen. A versão canina do marido.
Orelinha demonstra ciúmes quando o carinho é dado primeiro pro Cotonete. Dando uma patada na minha mão, como se dissesse: Ei, as damas primeiro!!!

Cotonete está deitado ao lado de Orelhinha com a cabeça apoiada em suas costelas, seu travesseiro preferido. Acompanha tudo que acontece levantando a cabeça e suas orelhas de morcego rapidamente ao menor sinal de qualquer coisa com seus olhinhos de jabuticaba.
Cotonete é agitado, estressado, ativo e muito devoto aos seus afetos. A versão canina dessa que vos fala.
Cotonete demonstra ciúmes quando o carinho é dado primeiro à Orelhinha. Dando dentadas nas patas da coitada e pulando e chorando como se dissesse: Ei! Eu cheguei primeiro nessa casa!!
Orelhinha é minha Boston Terrier de 3 anos que também atende pela alcunha de Jolie.
Cotonete é meu Chiwawa de também 3 anos que igualmente atende pela alcunha de Yuki.
Seus apelidos nasceram pelas incessantes demonstrações de amor, carinho e companheirismo desses dois filhos postiços.
Enquanto Jolie está deitada, Yuki lambe suas orelhas, dá um banho de gato no rosto dela e a deixa completamente entregue, já que ela adora.
Esse ritual acontece todos os dias, a qualquer momento, no castelo aramado bem espaçoso vulgarmente chamado de canil, que fica na casa amarela de portas e janelas brancas, de uma rua movimentada em algum lugar do Japão.

27/06/2009

Sobre o Tempo

Hoje fez um sol divino. Acabo de chegar em casa, teve uma reunião no grupo de escoteiro do Lo para informar do acampamento do mês que vem.
TRÊS DIAS!!!! Sabe o que isso? TRÊS DIAS que meu filhote vai dormir fora de casa, numa outra cidade, com pessoas estranhas, em saco de dormir, cheio de mosquitos e outros insetos, sem nenhum conforto, sem a mamãe e ele tá AMANDO!!!!!

Ai meudeus... por que ninguém ensina que cortar o cordão umbilical é tão difícil e doloroso...
Hoje quando ele ligou todo feliz pro Tanchou pra saber se tinha que levar alguma coisa, por que havia a terrível possibilidade deles dormirem HOJE (como assim?) em um acampamento improvisado pra acostumar; o lado zen ria de chorar da minha cara pelo meu desespero de ter um filho longe da minha asa.

Ai g.zuis... agora sei o que minha maezinha passava quando eu ensaiava meus primeiros vôos... tadinha... mas assim caminha a humanidade né Lulu?

Enquanto o mês que vem não chega, ele já foi providenciando o Teru Teru Bozu pra pendurar na janela por que tá prometendo chuva amanhã e eles querem é andar de bicicleta até ficarem o pó da rabiola. Se bem que criança não cansa. Nunca por sinal. É na hora que cansa, apaga.
Será que se eu pendurar um Peter Pan e uma Sininho na porta eles param de crescer?


Esse é o Teru Teru Bozu. As crianças japonesas acreditam que ele tem o poder de afastar a chuva, quando pendurado desse jeito e de trazer a chuva quando pendurado de cabeça pra baixo. Nessa época do ano, que já é bem quente, é comum ver muitos teru teru pendurados pelas janelas das casas.

Miss Yang já sofre por antecipação ao imaginar seus bebês virando gente grande e saindo de casa.

19/09/2008

A Difícil Arte do Convívio

Por que será que justo no dia em que se tem uma pá de coisas pra fazer na rua o clima é sempre de extremos? Ou é um sol que racha o coquinho ou uma chuva torrencial como a de hoje (e, claro, BEM na hora que eu saí de casa).

Como saímos da escola com fome, fui com a Yuyu afogar as lombrigas num restaurante popular italiano bem perto de casa, aonde a gente se jogou sem culpa numa carbonara.
Tudo muito bom, tudo muito bem, até perceber que na mesa atrás de mim haviam dois homens brasileiros conversando. Pelo estilo, de cara identifiquei que um deles era pastor (isso mesmo, as igrejas de Edir Macedo e similares pipocam aqui num crescimento apavorante) o que confirmei no estacionamento pelo adesivo "Missão Assembléia de Deus no Japão" colocado no carro.

Como o sofá é daqueles em que o encosto é grudado no encosto do sofá da outra mesa, minhas costas ficaram a menos de meio metro das costas do pastor, e pude ouvir toda a conversa (não que eu quizesse realmente) dos dois.

Primeiro o pastor falou, falou, falou, que eu já tava com vontade de ir embora, imagina a criatura na frente dele. Depois o outro cara, que aparentava uns 25 anos, argumentou.
Pude perceber que o motivo do aconselhamento era conjugal, e dentre tantas coisas ditas, ficou muito claro que o casamento do moço estava a banca rota pela seguinte frase dele:

- Eu to fazendo hora extra ela pensa que to na gandaia, eu to em casa e a gente não troca nem um oi, quem dirá carinho....

É incrível o número absurdo de pessoas que se separam no Japão. Quando eu cheguei aqui, no primeiro dia conhecemos uma família que nos mostrou tudo que precisávamos saber para não nos perdermos ou termos uma crise (histérica) de identidade. Dentre essas coisas, duas chamaram a atenção: Uma, era sobre os terremotos e a outra era sobre manter o casamento.
E isso faz 6 anos. E os mesmos conselhos são repassados até hoje.

A vida aqui é massante e os raros momentos de lazer, tirando parques públicos, custam caro. Fora isso, muitos se deslumbram com o dinheiro fácil e com facilidades como poder comprar um carro usado com apenas um mês de salário. Alguns sofrem com a alternância dos turnos de trabalho do tipo, enquanto o marido tá dormindo a mulher tá trabalhando e vice versa.
Outros se perdem no vício das famijeradas caça níqueis, amplamente difundidas aqui e chamadas de pachinko, e nessa acabam perdendo a família, o emprego e a dignidade. Outra coisa também que chama muito a atenção por aqui é o aumento do individualismo, que na maioria das vezes é o criador do abismo conjugal.

Juntando tudo isso e mais um monte de outras coisas, os casamentos aqui se fragilizam, e muitos, não agüentam a esse turbilhão e se destroem sem direito a recompor os cacos.
É triste, mas é real. Dificilmente se encontra um casal que nunca tenha tido uma crise braba em terras nipônicas.

A maneira com que o casal tratará essa crise é que definirá se o casamento moribundo tem salvação ou se vai a sete palmos nos próximos capítulos. Sabemos que é chover no molhado dizer que diálogo é fundamental para o bom entrosamento do casal, que só o amor contrói e que há de se ceder igualmente para que o convívio seje harmonioso e tralálá com bolinhas.
Mesmo assim, na hora da crise, ninguém lembra nada disso, e muitas vezes as mágoas acumuladas são tantas, que o orgulho impede qualquer possibilidade de acordo ou de trégua.

Conheço muitos que se perderam na estrada e resolveram seguir o rumo sozinhos ou com outro parceiro. Alguns vão embora pro Brasil, outros arranjam companhia e constituem novas famílias, torcendo para que essa dê certo e não bailem na curva novamente.

Admiro os que tentam. De novo, de novo e de novo. Lutam pelas mais diversas causas: ou por que acreditam no amor, ou por que não admitem o fracasso, ou pelos filhos pequenos...
Mas há os que insistem só por comodismo ou pelo eterno medo de ficar sozinho.

Cada um sabe o seu tempo, o seu sentimento e a sua urgência. Mas de vez em quando é bom olhar dentro de si para ver se o amor ainda vale a pena ou se tá na hora de ver outras paisagens, por que só o amor constrói, mas o Japão destrói; e nesse entrevero, dê-lhe trabalho para os pastores espalhados pelo arquipélago afora.